512.

A Mulher e a Casa

"Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
pelos recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homeme
feito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la."

João Cabral de Melo Neto

511.

Escapulário

"No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia"

Oswald de Andrade

510.

"O litoral e as praias do Brasil têm algo a acrescentar à história mundial da canábis. Nas águas brasileiras, o navio Solano Lopez, em 1988, descarregou 20 mil latas de maconha prensada, ao se sentir perseguido pela polícia. A maconha vinha da Austrália, e seu destino final era os Estados Unidos. As latas, cada uma contendo 1,3 quilo de maconha prensada, se espalharam por vários estados e chegaram à Ipanema. Celebrou-se ali o que se convencionou chamar o Verão da Lata. A expressão "da lata" tornou-se sinônimo de boa qualidade e foi título de um CD da cantora Fernanda Abreu."
Fernando Gabeira, Folha Explica A Maconha
p.43 

509.

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508.

"E  agora, serei chamado de dependente e serei levado daqui preso?"
Evo Morales, em reunião da Onu, enquanto mascava folha de Coca

507.

"O tédio existe em função da vida sob a coação do trabalho e sob a rigorosa divisão do trabalho. Não teria que existir. Sempre que a conduta no tempo livre é verdadeiramente autônoma, determinada pelas próprias pessoas enquanto seres livres, é difícil que se instale o tédio; tampouco ali onde elas perseguem seu anseio de felicidade, ou onde sua atividade no tempo livre é racional em si mesma, como algo em si pleno de sentido."
Theodor Adorno, Indústria Cultural e Sociedade
p.110

506.

"Desgraciadamente, las citas de la Biblia en boca de hombres de Estado no han constituido hasta ahora experiencias felices."
Herman Hesse, Lecturas Para Minutos, tese 63 

505.

"Só os imbecis tem medo do ridiculo"
Nelson Rodrigues

504.

"Como sugere Jack Herer, no clássico The Emperror Wears No Clothes, essa campanha contra a maconha pode ser vista de outro ângulo: o da guerra da indústria química e petrolífera contra o cânhamo. De fato, essa rese se fortalece com o exemplo de Henry Ford, que construiu um carro de fibra de cânhamo e iria movê-lo com o combustível tirada da semente do próprio cânhamo. Era compreensível o embaraço que significava a existência de um versátil recurso renovável, quando se preparava a arrancada do petróleo como um produto estratégico para a humanidade."
Fernando Gabeira, Folha Explica A Maconha
p.10

503.

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502.

Congênito
"Se a gente falasse menos
Talvez compreendesse mais
Teatro, boate, cinema
Qualquer prazer não satisfaz
Palavra figura de espanto
Quanto na terra tento descansar

Mas o tudo que se tem
Não representa nada
Tá na cara
Que o cara tem seu automóvel
E tudo que se tem
Não representa tudo
O puro conteúdo é consideração
Não goza de consideração" 
Luiz Melodia, do disco Maravilhas Contemporâneas

501.

"Outro dia maltratei bastante o valor da linguagem como instrumento expressivo da vida sensível. Agora conto um caso que exprime bem a força dominadora das palavras sobre a sensibilidade. Quem refletia um bocado sobre uma palavra, há-de perceber que mistério poderoso se entocaia nas sílabas dela."
Mário de Andrade, Memória e Assombração
p.161

500!

"Há tantos livros, mas há tão pouco tempo"
Frank Zappa

499.

"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida"
Clarice Lispector, A Hora da Estrela
p.9

498.

Lenda do Rei Lear

Este rrey Leyr nom ouue filho, mas ouue tres filhas muy fermosas e amaua-as muito. E huum dia ouue sas rrazõoes com ellas e disse-lhes qu lhe dissessem verdade, qual d'ellas o amaua mais. Disse a mayor que nom auia cousa no mundo que tanto amasse como elle; e disse a outra que o amaua tanto como ssy mesma; e disse a terçeira, que era a meor, que o amaua tanto como deue d'amar filha a padre. E elle quis-lhe mal porém, e por esto nom lhe quis dar parte do rreyno. E casou a filha mayor com o duque de Cornoalha, e casou a outra com rrey de Scocia, e nom curou da meor. Mas ela por sa vemtuira casou-se me. lhor que nenhüa das outras, ca se pagou d'ella el-rrey de Framça, e filhou.a por molher. E depois seu padre d'ella em sa velhiçe filharomlhe seus gemros a terra, e foy mallandamte, e ouue a tornar aa merçee d'ell-rrey de Framça e de sa filha, a meor, a que nom quis dar parte do rreyno. E elles reçeberom-no muy bem  derom-lhe todas as cousas que lhe forom mester, e homrrarom-nomentre foy uiuo; e morreo em seu poder.

William Shakespeare. Texto traduzido em Português arcaico, do século XIII ou XIV. Retirado de FARACO, Carlos Alberto. Lingüística Histórica.

497.

"Originalmente era um termo astronômico que designava movimento regular, sistemático e cíclico dos corpos celestes. Seu significado ampliou-se ao ser introduzido no campo semântico da política, passando a designar também movimentos sociais alteradores duma ordem estabelecida. (...) No início dessa expansão semântica o termo tinha um significado de movimento social restaurador duma ordem anterior (ligado ao significado original de ciclo, volta) e, só mais tarde, adquiriu seu significado atual de destruição de uma velha ordem e construção de uma nova."
Carlos Alberto Faraco, Linguística Histórica, sobre a palavra "Revolução"

496.

"Uma consciência clarividente demais, asseguro-vos, senhores, é uma doença, uma doença muito real. Uma consciência ordinária nos basta mais que amplamente em nossa vida cotidiana, ..."
Fiódor Dostoiévski, Melhores Contos, Memórias do Subsolo
p.20

enviada por Clarice Cardoso

495.

De cara Lavada - 177

"hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos"
Martha Medeiros

494.

Claridade

é o fogo,
o artifício,
o cumprimento do ofício
a consciência da prazer.

Claridade é a luz do sol,
raiar de todos os dias na alma
a nova geração,
a pureza,
o verbo,
a reflexão,
a ciência.

Um pavio aceso na escuridão.

Claridade é um rio correndo,
todo o começo,
todo o amor:
é a poesia,
é a música brasileira e todos os amigos do peito

Claridade é Caetano, Gil,
Mautner, Melodia, Chico,
Geraldinho, Luiz Gonzaga,
Luis Ramalho, Zé Ramalho
Amelinha, Vital, Valença
Nené, Jackson do Pandeiro,
Sivuca, Noveli, Schangai,
Tadeu, Bráulio, Umberlino,
Romero, Washington, Dal,
João, Carlinhos Jullien, 
Carlos Fernando, Katia Messel,
de França, Abdias,
Robertinho de Recife,
Milton Nascimento, Paulo Rafael,
Zé da Flauta, Pedro Osmar,
Elomar, Jatobá, Mirabô
Capinan, Paulinho Tapajós,
Nelsinho, Guil, Zé Américo,
Joca, Elber, Marcos Amma,
Mauro Morra, Bebeth,
Beto Ribeiro, Coutinho,
Géu.

Com um beijo,
Elba Ramalho, no encarte do vinil Capim do Vale, 1980 

493.

Esquecimento

"Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei… tateio sombras… que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro…
A sombra dos meus olhos, a escurecer…
Veste de roxo e negro os crisântemos…
E desse que era eu meu já me não lembro…
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos…!"
Florbela Espanca, Charneca em Flor